De volta à ativa, Bebeo Duarte fala sobre Carlson Gracie e evolução do MMA


Um dos mais famosos faixas-preta de Carlson Gracie, Bebeo Duarte está de volta ao batente, para treinar e dar aulas de jiu-jitsu na academia de Rogério Miranda. Num bate-papo de alto nível com o PVT, Bebeo falou sobre passado, presente e futuro, desde os tempos de desafios entre equipes de jiu-jitsu até o momento atual do MMA, dos superatletas, além de comentar sobre seu trabalho no Jungle Fight e os planos do evento para a sequência do ano de 2011.

Na entrevista abaixo, Bebeo Duarte também criticou a quantidade de lutadores que se dizem faixa-preta de Carlson. “Depois que o Mestre Carlson morreu, apareceram vários que se diziam faixas pretas dele. Só se a faixa foi psicografada! Está lá no Facebook, toda vez que alguém fala que é preta do Carlson, pergunto se o nome dele aparece na lista”, ressaltou.

PVT: Como foi que você voltou a dar aulas de jiu-jitsu, na academia do Rogério Miranda?

Bebeo Duarte: Conversava o Rogerinho e ele sempre falava para darmos um treininho, em qualquer academia. Eu não estava fazendo nenhuma atividade física, só algumas peladinhas de fim de semana com amigos barrigudos como eu (risos). Quando ele montou academia, em Copacabana, me chamou pra dar um treino. Disse que eu tinha que fazer um exercício, não ficar sedentário. Decidi dar aulas lá na hora do almoço. A ideia é começar com turmas pequenas. Criei esse horário porque é um espaço que tenho para colocar um kimono e dar um treino, estou com saudade. Talvez porque esteja vendo meus filhos treinando jiu-jitsu de pano (na academia de Álvaro Mansur), e querer dar um ‘rolinha´ com eles quando estiverem maiores. Combinei com o Rogério e seu sócio Giovani que as aulas serão terças e quintas. Vou passar umas técnicas da Carlson Gracie / Bebeo de jiu-jitsu pra galera.”

Essa volta também pode ser uma oportunidade de encontrar velhos amigos?

Bebeo Duarte: É, pretendo convidar amigos a participarem dos treinos, sem aquela competitividade de antes. É treinar por bem-estar, saúde, e reunião dos nossos amigos. Quem precisar ir a analista, vá treinar que terá o mesmo resultado. É onde a gente relaxa. O melhor era depois do treino, quando ficávamos ali encostados de pernas pra cima, falando besteira. Alguns iam pra academia e nem treinavam, só para ter o bate-papo do final. Vou tentar resgatar um pouco disso agora.

Como foi viver o ápice da Carlson Gracie, quando ganhavam tudo?

Ah, era barba, cabelo e bigode. Tirando o peso do Rickson, a gente ganhava tudo, todas as categorias, da azul à preta. A hegemonia foi até 94, o último Brasileiro que o Carlson ganhou. Até porque o foco mudou, nossos lutadores de ponta foram pro MMA. Não dava pra conciliar com o pano, manter o nível. Hoje em dia, mesmo a escola do Carlson sendo reconhecida ao redor do mundo, não vejo nas competições de jiu-jitsu nenhum descendente da linhagem Carlson Gracie. Acabei de ver, por exemplo, o mundial de Abu Dhabi, e não achei ninguém. Talvez os professores, que são ótimos, estejam preocupados com o business, em fazer dinheiro, e não em produzir campeões, competição mesmo. Vemos aí professores com 200, 300 alunos, caras que fazem um excelente trabalho, como o Ricardinho Cavalcante em Las Vegas, Rodriguinho Medeiros em San Diego, mas não vejo um descendente do Carlson.

Não que eu renegue o passado, mas precisamos de substitutos. Eu, Zé Mário, Murilo, Libório, estamos ficando velhos! Vou fazer 47 anos, sou um dos mais velhos. Quem é o cara de 28, 30 anos, que vai carregar essa bandeira? Depois que o Mestre Carlson morreu, apareceram vários que se diziam faixas pretas dele. Só se a faixa foi psicografada!

Só eram faixas pretas dele os que estavam na lista que ele deixou…

É, vale o que está escrito. Está lá no Facebook, toda vez que alguém fala que é preta do Carlson, pergunto se o nome dele aparece na lista. Acho que nós mesmos, alunos do Carlson, devemos procurar essa renovação. Lógico que meus alunos, os alunos do Murilo e dos outros, seguirão a linhagem Carlson, mas temos que deixá-la bem clara para as pessoas.

Já no MMA, como você mesmo observou, encontramos vários dessa linhagem…

Sim, temos o Libório e o Parrumpinha na American Top Team, e em outros centros de treinamento pelo mundo encontramos outros da linhagem. Mas se falarmos de jiu-jitsu de pano, de competição, não temos, perdemos isso. O Carlson incentivou muito o vale-tudo, desde 91, quando houve aquele desafio jiu-jitsu x luta livre. E nunca paramos de treinar, talvez antevendo o que viria em relação ao vale-tudo, por isso estávamos na frente dos outros. Tanto que, quando começaram os desafios, era a galera do Carlson que ia lutar o Zé Mário, o Murilo… Tudo isso nos deu um background maior. Hoje tudo mudou, não adianta ser só lutador, tem que ser atleta, mas nós ainda temos uma colocação privilegiada em relação aos demais.

Como você, que também trabalha no Jungle Fight, vê a chegada do UFC no Brasil? Qual o bem traria para o MMA nacional, para os eventos brasileiros?

Estou muito esperançoso. Essa vinda do UFC vai aumentar a força do MMA no Brasil. Vai abrir a cabeça de muita gente que ainda resiste. Ainda a resistência de algumas empresas, uma espera a outra, algo como: “Ah, se sua empresa entrar (patrocinar), eu entro”. Mas ninguém quer dar o primeiro passo.

Lógico que estamos começando a quebrar isso, tendo muitos eventos aqui. Ainda tem alguns que, pelo tempo de estrada que temos, sabemos que será um só, filho único de mãe solteira. O cara gasta muito, ainda não tem o retorno. Ninguém gosta de colocar 400, 500 mil e não ver nada de volta. Seria até bom o organizador poupar, em vez de fazer um eventaço e depois nenhum outro, faz dois ou três no ano. Aumenta o número de eventos, oportunidade para o atleta lutar. Então veremos cada vez mais talentos. O Jungle vejo como referência porque o Wallid consegue fazer 13, 14 eventos por ano. Já fizemos três em 2011, temos mais três programados para o 1º semestre. A ideia é terminar o ano com 12 edições.

O Jungle tem conseguido o apoio que ninguém conseguiu ainda, pelo nome Jungle. Tem apoio de político em Brasília, apoio no Espírito Santo…

O Wallid articula muito bem no campo político. Brinco até com ele, dizendo que vai se candidatar, que vai largar o Jungle na nossa mão e vai tocar a vida como deputado, senador… Ele diz que não. Wallid tem boas relações com as empresas e também com os governos, que dão as condições para ele realizar os eventos. Nem todo mundo tem essa articulação, essa penetração nos bastidores. Mas uma das coisas que ainda me incomodam no MMA nacional é termos apenas um canal de TV à disposição, que mostra os eventos daqui. E às vezes vejo uma falta de critério.

Tem que dar valor ao cara que investe mais. Um gasta 300 mil, outro gasta 30 mil e tem seu evento mostrado da mesma forma. Começa a nivelar por baixo. Tem que priorizar os melhores cards, usar a melhor luz, melhores imagens. Você paga a assinatura para ver um show. Se o som está ruim, a luz está ruim, você não está satisfeito. Claro que colocar caras melhores para lutar também ajuda. Tem que saber usar as fórmulas pra dar certo. Não vou dizer que sempre acertamos no Jungle. Tem cards que achamos que serão bons mas acabam não dando liga.

Muitos reclamam que cards como os primeiros do Jungle, que contavam com lutadores como Lyoto Machida, não se repetem, e são relacionados atletas iniciantes. Por quê?

Naquela época, o Lyoto, por exemplo, não era conhecido. Outros como o Werdum, Gabriel Napão, também não. Na época do MECA, em que o Anderson e o Wanderlei lutaram, eles também eram desconhecidos. A ideia do Wallid é abrir as portas, lançar craques para o futuro. Vários do Jungle chegaram ao UFC, por exemplo. Thales Leites, Yuri Marajó, Paulo Thiago… Não podemos pagar ainda o que um lutador de ponta recebe no UFC. Tem lutador com bolsa menor, que até podemos pagar, mas ele escolhe o glamour do UFC.

Se aumentar a visibilidade, tiver transmissão em TV aberta, conseguiremos ter cards ainda melhores e um circuito nacional forte. Temos o exemplo do vôlei. Os melhores estão aqui e quem está lá fora quer voltar, o campeonato está forte. No futebol estão voltando também, só que mais aqueles em fim de carreira. Tem alguns que não foram ainda porque estão ganhando bom dinheiro aqui, perto de casa, como o Neymar. Queremos que os lutadores que ficarem no Brasil tenham condições de pagar suas contas, treinar legal. É isso que procuramos.

FONT: http://www.portaldovt.com.br/pt/?channel=2&id=3100

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